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Famílias inteiras são dizimadas pelo descontrole da Covid-19 na Índia rural

 

Famílias inteiras são dizimadas pelo descontrole da Covid-19 na Índia rural

Em Basi, aldeia a cerca de 90 minutos de Nova Délhi, três quartos dos 5.400 moradores estão doentes e mais de 30 morreram nas últimas três semanas; má gestão da pandemia gera críticas ao primeiro-ministro Narendra Modi

NOVA DÉLHI – Depois de devastar as maiores cidades da Índia, a última onda da Covid-19 está agora afetando as áreas rurais do segundo país mais populoso do mundo. A maioria das aldeias não tem meios de lutar contra o vírus.

Em Basi, a cerca de 90 minutos de Nova Délhi, por volta de três quartos das 5.400 pessoas do vilarejo estão doentes e mais de 30 morreram nas últimas três semanas. Lá não há instalações sanitárias, médicos nem oxigênio. Ao contrário da população urbana, acostumada com as mídias sociais, os moradores da aldeia não podem apelar a estranhos dispostos a ajudar.

— A maioria das mortes nos vilarejos têm sido causadas por falta de oxigênio disponível — afirmou o recém eleito líder da comunidade agrícola, Sanjeev Kumar — Os doentes estão sendo levados para a sede do distrito e os pacientes em situação extrema têm que viajar cerca de quatro horas — explicou, acrescentando que muitos não chegam a tempo.

Esse cenário ocorre por toda a Índia. Em entrevistas com representantes de mais de 18 cidades e vilarejos em diferentes partes do país, as autoridades delinearam a escala da carnificina —  de famílias inteiras dizimadas a corpos inchados flutuando no Rio Ganges e terras agrícolas abandonadas devido à falta de trabalhadores.

Muitas pessoas disseram que o tamanho da crise é muito maior do que os números oficiais revelam, com moradores das aldeias com medo de deixar suas casas, mesmo que tenham febre, e as autoridades locais não registrando adequadamente as mortes pelo coronavírus. A Índia tem registrado oficialmente por dia mais de 4 mil mortes, enquanto o total de casos alcançou 25 milhões, de acordo com o Ministério da Saúde.

A raiva está crescendo tanto em relação à administração do primeiro-ministro Narendra Modi quanto às autoridades locais por não terem reforçado a infraestrutura médica após a primeira onda da pandemia no ano passado, incluindo a garantia de oxigênio e vacinas suficientes.

O Partido do Povo Indiano, que governa o país, perdeu as eleições locais em Basi no mês passado e em outras partes de Uttar Pradesh —  o estado mais populoso da Índia —  exatamente quando o país começou a registrar quase 400 mil novos casos por dia.

O sentimento no local sugere problemas mais amplos para Modi e para o ministro-chefe de Uttar Pradesh, Yogi Adityanath, mencionado como um possível sucessor do primeiro-ministro. O estado realiza eleições no próximo ano.

Durante a recente eleição para nomear os chefes das aldeias, muitos funcionários eleitorais foram infectados —  incluindo Kumarsain Nain, 59, que pegou o vírus junto com seu filho de 31 anos. Incapaz de andar e ofegante, a família de Nain o levou às pressas, no mês passado, para um hospital próximo depois que não conseguiram encontrar uma ambulância com suporte de oxigênio, disse outro filho, Praveen Kumar.

— Depois que chegamos ao hospital, os médicos disseram que ele havia morrido, mas, ao invés de registrar Covid-19 como a causa da morte, eles colocaram uma parada cardíaca — disse Kumar — O médico nos disse que não havia necessidade de verificar se meu pai era um paciente de coronavírus positivo pois ele já estava morto — relembrou.

Seu irmão morreu logo depois em outra clínica, a cerca de 30 minutos de distância.

— Minha suspeita é que o hospital ficou sem oxigênio, o que levou às mortes. Realizar as eleições quando o governo sabia que os casos estavam aumentando e que a infecção estava se espalhando foi um ato criminoso — lamentou Kumar.

Representantes do primeiro-ministro e do Ministério da Saúde não responderam aos pedidos de informação. Modi abordou a questão em 14 de maio, após uma reunião com vários aliados estaduais.

— Eu quero alertar vocês sobre o coronavírus . A infecção está se espalhando rapidamente nas aldeias. Esforços estão sendo feitos para lidar com isso — disse o primeiro-ministro.

A Covid-19 está aumentando os problemas de Modi, juntando-se a uma grave crise econômica, ao aumento do desemprego e aos protestos de agricultores contra uma lei considerada favorável às grandes empresas, de acordo Nikita Sud, professora Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford e autora de um livro sobre o nacionalismo hindu.

— É muito simplista dizer que a má gestão da pandemia significa a virada da maré para o regime de Modi. No entanto, o governo parece estar fora de controle pela primeira vez desde que chegou ao poder em 2014 — explicou Sud.

Enquanto os líderes em Délhi lutam para conter a crise, cenas horríveis se desenrolam em toda a Índia. Na semana passada, no estado de Bihar, no Leste do país, os moradores acordaram para encontrar até 70 corpos inchados flutuando no Ganges. Com os crematórios transbordando conforme aumenta o número de mortos, havia o temor de que esses corpos fossem vítimas da Covid-19.

Em Punjab, as autoridades estão recrutando voluntários entre os um milhão de agentes de saúde credenciados no país para visitar todas as casas e pedir às pessoas que se vacinem e vejam se alguém está com febre. Embora os agentes sejam conhecidos por trabalhar em condições difíceis para vacinar crianças e prestar primeiros socorros nas aldeias, a escala da crise atual não tem precedentes, disse Balbir, um desses trabalhadores.

Uttarakhand também foi duramente atingido. O estado no pé do Himalaia viu os casos de vírus aumentarem quase 20 vezes depois de receber mais de nove milhões de pessoas para o festival religioso hindu conhecido como Kumbh Mela, entre 31 de março e 24 de abril.

Fonte: https://oglobo.globo.com/mundo/familias-inteiras-sao-dizimadas-pelo-descontrole-da-covid-19-na-india-rural-25023151?utm_source=globo.com&utm_medium=oglobo

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